Vladímir Ilich Uliánov LENINE
Que fazer?
Problemas candentes do nosso
movimento
I
DOGMATISMO E «LIBERDADE DE CRÍTICA»
c) A crítica na Rússia
A particularidade fundamental da Rússia, no aspecto que estamos a analisar, consiste em que já o próprio começo do movimento operário espontáneo, por um lado, e a viragem da opiniom publica avançada para o marxismo, por outro, se distinguírom pola uniom de elementos notoriamente heterogéneos, sob umha bandeira comum e para luitar contra o inimigo comum (contra as concepçons políticas e sociais caducas.) Referimo-nos à lua de mel do «marxismo legal». Foi em geral um fenómeno extraordinariamente original, em cuja possibilidade ninguém teria podido sequer acreditar na década de 80 ou no início da de 90. Num país autocrático, com umha imprensa completamente subjugada, numha época de terrível reacçom política que reprimia as mínimas manifestaçons de descontentamento político e de protesto, a teoria do marxismo revolucionário abriu subitamente caminho na literatura visada pola censura, exposta numha linguagem esópica, mas compreensível por todos os «interessados». O governo tinha-se habituado a nom considerar como perigosa senom a teoria de «A Vontade do Povo» (revolucionária), sem que notasse, como vulgarmente acontece, a sua evoluçom interna, regozijando-se com toda a crítica dirigida contra ela. Antes de o governo se aperceber, antes de o pesado exército de censores e gendarmes ter tido tempo de dar com o novo inimigo e cair sobre ele, passou nom pouco tempo (na nossa medida russa). E, entretanto, as obras marxistas eram editadas umhas atrás das outras, fundavam-se jornais e revistas marxistas, toda a gente se tornava marxista, os marxistas eram lisonjeados, adulados, os editores estavam entusiasmados com a venda extremamente rápida das obras marxistas. É compreensível que entre os marxistas principiantes, rodeados por esta atmosfera de inebriamento, tenha havido mais de um «escritor envaidecido» 21...
Hoje pode-se falar tranquilamente deste período, como do passado. Ninguém ignora que o florescimento efémero do marxismo à superfície da nossa literatura tivo a sua origem na aliança entre elementos extremos com elmentos muito moderados. No fundo, estes últimos eram democratas burgueses, e esta conclusom (comprovada com toda a evidência pola evoluçom «crítica» ulterior que sofrêrom) impunha-se a certas pessoas já na época em que a «aliança» estava ainda intacta 22.
Mas, neste caso, nom serám os social-democratas revolucionários, que figérom esta aliança com os futuros «críticos», os maiores responsáveis pola «confusom» subseqüente? Esta pergunta, seguida de umha resposta afirmativa, ouve-se, por vezes, na boca de pessoas que vem as cousas de maneira demasiado rectilínea. Mas estas pessoas nom tenhem razom nengumha. Só podem recear as alianças temporárias, mesmo com elementos inseguros, aqueles que nom tenhem confiança em si próprios; e nengum partido político poderia existir sem essas alianças. Ora, a uniom com os marxistas legais foi umha espécie de primeira aliança verdadeiramente política realizada pola social-democracia russa. Graças a esta aliança foi possível obter umha vitória assombrosamente rápida sobre o populismo, assim como umha difusom extremamente ampla das ideias marxistas (embora sob umha forma vulgarizada) Além disso, a aliança nom foi concluída completamente sem «condiçons». Testemunha-o a compilaçom marxista Materiais sobre a Questom do Desenvolvimento Económico da Rússia, queimada pola censura em 1895. Se se pode comparar o acordo literário com os marxistas legais com umha aliança politica, pode-se comparar este livro com um pacto político.
A rotura nom se deve, evidentemente, ao facto de os «aliados» se terem rebelado democratas burgueses. Polo contrário, os representantes desta última tendência som aliados naturais e desejáveis da social-democracia, sempre que se trate de tarefas democráticas desta, tarefas que a situaçom actual da Rússia coloca em primeiro lugar. Mas é condiçom indispensável para esta aliança que os socialistas tenham plena possibilidade de relevar à classe operária a oposiçom hostil entre os seus interesses e os interesses da burguesia. Mas o bernsteinianismo e a tendência «crítica», para a qual evoluiu em geral a maior parte dos marxistas legais, eliminavam esta possibilidade e corrompiam a consciência socialista aviltando o marxismo, pregando a teoria da atenuaçom das contradiçons sociais, proclamando que é absurda a ideia da revoluçom social e da ditadura do proletariado, reduzindo o movimento operário e a luita de classes a um trade-unionismo estreito e à luita «realista» por reformas pequenas e graduais. Era exactamente o mesmo que se a democracia burguesa negasse o direito do socialismo à independência e, por conseqüência, o seu direito à existência; na prática isto significava tender a converter o nascente movimento operário em apêndice dos liberais.
Naturalmente, nestas condiçons a rotura tornou-se necessária. Mas a particularidade «original» da Rússia manifestou-se em que essa rotura significou apenas a eliminaçom dos social-democratas da literatura «legal», a mais acessível para todos e mais amplamente difundida. Nela se entrincheirárom os «ex-marxistas», que se tinham agrupado «sob o signo da crítica» e que obtivérom quase o monopólio para «demolir» o marxismo. As palavras de ordem «Contra a ortodoxia!» e «Viva a liberdade de crítica!» (repetidas agora pola R. Dielo) tornárom-se imediatamente palavras muito em voga; e que nem mesmo os censores nem os gendarmes conseguírom resistir a essa moda, mostram-no as três ediçons russas do livro do famoso (famoso à maneira de Heróstrato) Bernstein 23 ou a recomendaçom dos livros de Bernstein, do Sr. Prokopóvitch e outros por Zubátov (Iskra, n.° 10). Aos socias-democratas incumbia entom umha tarefa já de si difícil, e incrivelmente mais dificultada ainda devido a obstáculos puramente exteriores: a tarefa de combater a nova corrente. E esta corrente nom se limitou ao terreno da literatura. A viragem para a «crítica» foi acompanhada de um movimento em sentido contrário: a propensom dos social-democratas práticos para o «economismo».
Este interessante assunto, como surgiu e se estreitou a ligaçom e a interdependência entre a crítica legal e o «economismo» ilegal, poderia servir de tema para um artigo especial. Aqui basta-nos assinalar a existência icontestável dessa ligaçom. O famoso Credo adquiriu umha celebridade tam merecida precisamente por ter formulado abertamente esta ligaçom e ter revelado involuntariamente a tendência política fundamental do «economismo»: que os operários travem a luita económica (ou mais exactamente: a luita trade-unionista, porque esta abrange também a política especificamente operária) e que a intelectualidade marxista se funda com os liberais para a luita política. O trabalho trade-unionista «no povo» foi a realizaçom da primeira metade desta tarefa, e a crítica legal a realizaçom da segunda metade. Esta declaraçom foi umha arma tam excelente contra o «economismo» que, se o Credo nom tivesse existido, valeria a pena tê-lo inventado.
O Credo nom foi inventado, mas sim publicado sem o consentimento e talvez mesmo contra a vontade dos seus autores. Polo menos, o autor destas linhas, que contribuiu para trazer à luz do dia o novo «programa» 24, tivo que ouvir lamentaçons e censuras polo facto de o resumo dos pontos de vista dos oradores ter sido divulgado em cópias, rotulado com o nome de Credo e até ter sido publicado na imprensa juntamente com o protesto! Referimos este episódio porque revela um traço muito curioso do nosso «economismo»: o medo da publicidade. Esta é umha característica, nom só dos autores do Credo, mas do «economismo» em geral: manifestárom-no tanto o Rabótchaia Misl 25 –o adepto mais franco e mais honesto do «economismo»– como a R. Dielo (ao indignar-se com a publicaçom de documentos «economistas» no Vademecum 26), bem como o Comité de Kíev, que nom quijo, há cerca de dous anos, autorizar que se publicasse a sua Profession de foi 27 em conjunto com a refutaçom 28 desta última, bem como muitos e muitos representantes isolados do «economismo».
Este medo da crítica que manifestam os adeptos da liberdade de crítica nom pode ser explicado unicamente como simples astúcia (se bem que, de vez em quando, as cousas nom aconteçam, indubitavelmente, sem astúcia: nom é vantajoso expor aos ataques do adversário os rebentos ainda frágeis da nova tendência!). Nom, a maioria dos «economistas», com absoluta sinceridade, vê com maus olhos (e pola própria essência do «economismo» tem de desaprovar) todas as controvérsias teóricas, divergências de fracçom, amplas questons políticas, projectos de organizar os revolucionários, etc. «Seria melhor deixar tudo isto à gente do estrangeiro!», dixo-me um dia um dos «economistas» bastante conseqüentes, exprimindo assim esta opiniom muito difundida (e também puramente trade-unionista): o que a nós nos incumbe é o movimento operário, as organizaçons operárias que temos aqui, na nossa localidade, e o resto som invençons dos doutrinários, umha «sobrestimaçom da ideologia», segundo a expressom dos autores da carta publicada no n.º 10 do Iskra, fazendo coro com o n.° 10 da R. Dielo.
Agora cabe perguntar: dadas estas particularidades da «crítica» russa e do bernsteinianismo russo, em que deveria consistir a tarefa dos que de facto, e nom somente em palavras, queriam ser adversários do oportunismo? Primeiramente, era preciso pensar em retomar o trabalho teórico que, mal tendo começado na época do marxismo Iegal, agora tinha voltado a recair sobre os militantes ilegais: sem um trabalho destes, nom era possível um crescimento eficaz do movimento. Em segundo lugar, era necessário empreender umha luita activa contra a «crítica» legal, que corrompia profundamente os espíritos. Em terceiro lugar, havia que actuar energicamente contra a dispersom e as vacilaçons no movimento prático, denunciando e refutando qualquer tentativa de rebaixar, consciente ou inconscientemente, o nosso programa e a nossa táctica.
É sabido que a R. Dielo nom cumpriu nem a primeira, nem a segunda, nem a terceira destas tarefas, e mais adiante teremos de esclarecer, em pormenor e nos seus mais diversos aspectos, essa verdade bem conhecida. Mas por agora, queremos simplesmente mostrar a flagrante contradiçom existente entre a reivindicaçom da «liberdade de crítica» e as particularidades da nossa crítica nacional e do «economismo» russo. Com efeito, lançade um olhar sobre o texto da resoluçom com que a «Uniom dos Social-democratas Russos no Estrangeiro» confirmou o ponto de vista da R. Dielo:
«No interesse do ulterior desenvolvimento ideológico da social-democracia, reconhecemos que a liberdade de críticar a teoria social-democrata nas publicaçons do partido é absolutamente necessária, na medida em que esta crítica nom contradiga o carácter de classe e o carácter revolucionário desta teoria.» (Dous Congressos, p. 10)
E apresentam-se os motivos: a resoluçom «coincide na sua primeira parte com a resoluçom do Congresso do Partido em Lübeck a propósito de Bernstein» ... Na sua simplicidade, os «aliados» nem sequer notam que testimonium paupertatis (certificado de indigência) passam a si próprios com esta maneira de copiar! ... «Mas ... na sua segunda parte, restringe a liberdade de crítica de um modo mais estrito do que o Congresso de Lübeck.»
A resoluçom da «Uniom» é portanto dirigida contra os bernsteinianos russos? Porque se assim nom fosse, seria completamente absurda a referência a Lübeck! Mas nom é verdade que «restrinja de um modo estrito a liberdade de crítica». Na sua resoluçom de Hannover, os alemáns rejeitárom, ponto por ponto, exactamente as emendas apresentadas por Bernstein e, na de Lübeck, figérom umha advertência pessoal a Bernstein, mencionando-o na resoluçom. Contudo, os nossos imitadores «livres» nom fam a menor alusom a umha única das manifestaçons da «crítica» especialmente russa e do «economismo» russo. Dado este silêncio, a mera alusom ao carácter de classe e ao carácter revolucionário da teoria deixa muito mais liberdade para falsas interpretaçons, sobretudo se a «Uniom» se recusa a classificar o «chamado economismo» como oportunismo (Dous Congressos, p. 8, parágrafo 1). Mas dizemos isto de passagem. O importante é que as posiçons dos oportunistas em relaçom com os social-democratas revolucionários som, na Alemanha e na Russia, diametralmente opostas. Na Alemanha, os social-democratas revolucionários, como é sabido, som pola manutençom do que existe: polo antigo programa e pola antiga táctica, conhecidos por todos e que fôrom explicados em todos os seus pormenores pola experiência de dezenas e dezenas dezenas de anos. Os «críticos», polo contrário, querem introduzir modificaçons e, como som umha ínfima minoria e as suas aspiraçons revisionistas som muito tímidas, compreende-se os motivos por que a maioria se limita a rejeitar pura e simplesmente as «inovaçons». Na Rússia, polo contrário, som os críticos e os «economistas» que querem manter aquilo que existe: os «críticos» querem continuar a ser considerados como marxistas e que se lhes assegure a «liberdade de critica» de que gozavam em todos os sentidos (porque, no fundo, nunca reconhecêrom quaisquer laços de partido 29; além disso, nom tínhamos um órgao de partido reconhecido por todos e capaz de «restringir» a liberdade de crítica, nem sequer por meio de um conselho); os «economistas» querem que os revolucionários reconheçam «a plenitude de direitos do movimento no presente» (R. D. n.° 10, p. 25), isto é a «legitimidade» da existência do que existe; que os «ideólogos» nom procurem «desviar» o movimento do caminho «determinado pola interacçom dos elementos materiais e do meio material» (Carta no n.° 12 do Iskra); que se reconheça como dejável travar a luita «que é possível para os operários nas circunstáncias presentes» e, como possível, a luita «que travam realmente no momento presente» (Suplemento separado do «R. Misl», p. 14). Polo contrário, a nós social-democratas revolucionários, desagrada-nos este culto da espontaneidade, quer dizer, do que existe «no momento presente», exigimos que seja modificada a táctica que prevaleceu durante esses últimos anos, declaramos que «antes de nos unirmos e para nos unirmos é necessário começar por demarcar-nos clara e resolutamente» (ver anúncio da publicaçom do Iskra). Numha palavra, os alemáns conformam-se com o que existe, rejeitando as modificaçons; quanto a nós, rejeitando a submissom e a resignaçom com o estado de cousas actual, exigimos a modificaçom do que existe.
É precisamente esta «pequena» diferença que os nossos «livres» copiadores de resoluçons alemás nom notárom!
d) Engels sobre a importáncia da luita teórica
«Dogmatismo, doutrinarismo», «ossificaçom do partido, castigo inevitável do espartilhamento violento do pensamento», tais som os inimigos contra os quais arremetem cavaleirescamente os campeons da «liberdade de crítica» na Rab. Dielo. Muito nos agrada que esta questom tenha sido posta na ordem do dia; somente propomos completá-la com outra:
E quem som os juízes?
Temos diante de nós dous anúncios de ediçons literárias. Um é o «Programa do Órgao Periódico da Uniom dos Social-democratas Russos, Rab. Dielo» (umha separata do n.° 1 da R. D.). O outro é o «Anúncio sobre o recomeço das Publicaçons do Grupo «Emancipaçom do Trabalho» 30. Ambos datam de 1899, quando a «crise do marxismo» estava, desde há muito, na ordem do dia. Pois bem, em vao procuraríamos na primeira obra alusom a este fenómeno e umha exposiçom clara da atitude que, perante ele, o novo órgao pensa tomar. Nem este programa nem os suplementos ao mesmo, aprovados polo III Congresso da «Uniom» em 1901 (Dous Congressos, pp. 15-18), mencionam o trabalho teórico nem os seus objectivos imediatos no momento presente. Durante todo este tempo, a redacçom da R. Dielo deixava de lado as questons teóricas, embora elas preocupassem os social-democratas do mundo inteiro.
O outro anúncio, polo contrário, assinala logo de início que, durante estes últimos anos, se tem observado um interesse menor pola teoria e reclama com insistência «umha atençom vigilante para o aspecto teórico do movimento revolucionário do proletariado» e exorta a «criticar implacavelmente as tendências bernsteinianas e outras tendências anti-revolucionárias» no nosso movimento. Os números da Zariá publicados mostram como este programa foi cumprido.
Vemos, pois, que as frases altissonantes contra a ossificaçom do pensamento, etc., dissimulam o desinteresse e a impotência no desenvolvimento do pensamento teórico. O exemplo dos social-democratas russos ilustra com particular evidência um fenómeno europeu geral (assinalado também há muito polos marxistas alemáns): a famosa liberdade de critica nom implica a substituiçom de umha teoria por outra, mas a liberdade de prescindir de toda a teoria coerente e reflectida, significa eclectismo e falta de princípios. Quem conhece, por pouco que seja, a situaçom real do nosso movimento nom pode deixar de ver que a ampla difusom do marxismo foi acompanhada por um certo abaixamento do nível teórico. Muitas pessoas, muito pouco preparadas teoricamente e inclusivamente sem preparaçom algumha, aderírom ao movimento polos seus êxitos práticos e polo seu significado prático. Por isso, pode-se julgar que falta de tacto manifesta a Rab. Dielo ao lançar, com ar triunfante, esta frase de Marx «Cada passo do movimento efectivo é mais importante do que umha dúzia de programas.» 31 Repetir estas palavras numha época de dissensons teóricas, é exactamente o mesmo que exclamar ao passar um cortejo fúnebre «Oxalá tenhades sempre algo que levar.» Além disso, estas palavras de Marx fôrom tiradas da sua carta sobre o programa de Gotha 32, na qual condena categoricamente o eclectismo na formulaçom dos princípios: já que é necessário unir-se –escrevia Marx aos dirigentes do partido–, fazede acordos para atingir os objectivos práticos do movimento, mas nom vos permitades o tráfico com os princípios, nem fagades «concessons» teóricas. Este era o pensamento de Marx, e eis que há entre nós pessoas que, no seu nome, procuram diminuir a importáncia da teoria!
Sem teoria revolucionária nom pode haver também movimento revolucionário. Nunca se insistirá demasiadamente nesta ideia numha altura em que a prédica em voga do oportunismo aparece acompanhada de umha atracçom polas formas mais estreitas da actividade prática. E para a social-democracia russa a importáncia da teoria é ainda maior por três razons, muito freqüentemente esquecidas, a saber: primeiramente, porque o nosso partido apenas começou a formar-se, apenas começou a elaborar a sua fisionomia, e está muito longe de ter ajustado contas com as outras tendências do pensamento revolucionário que ameaçam desviar o movimento do caminho correcto. Polo contrário, estes últimos tempos distinguírom-se precisamente (como Axelrod já há muito tinha predito aos «economistas») por umha reanimaçom das tendências revolucionárias nom social-democratas. Nestas condiçons, um erro, «sem importáncia» à primeira vista, pode levar às mais deploráveis conseqüências e é preciso ser míope para considerar como inoportunas ou supérfluas as discussons de fracçom e a delimitaçom rigorosa dos matizes. Da consolidaçom deste ou daquele «matiz» pode depender o futuro da social-democracia russa por muitos longos anos.
Em segundo lugar, o movimento social-democrata é, pola sua própria natureza, internacional. Isto nom significa apenas que devemos combater o chauvinismo nacional. Significa também que um movimento incipiente num país jovem só se pode desenvolver com êxito desde que aplique a experiência de outros países. E para isso nom basta simplesmente conhecer essa experiência ou copiar simplesmente as últimas resoluçons: para isso, é preciso saber assumir umha atitude crítica perante essa experiência e comprová-la por si próprio. Quem imaginar o gigantesco crescimento e ramificaçom do movimento operário contemporáneo compreenderá que reserva de forças teóricas e de experiência política (assim como revolucionária) é necessário para o cumprimento desta tarefa.
Em terceiro lugar, a social-democracia russa tem tarefas nacionais como nunca tivo nengum outro partido socialista do mundo. Mais adiante teremos de falar dos deveres políticos e de organizaçom que nos impom esta tarefa de libertar todo o povo do jugo da autocracia. De momento, queremos simplesmente indicar que só um partido guiado por una teoria de vanguarda pode desempenhar o papel de combatente de vanguarda. E, para se fazer umha ideia um pouco concreta do que significa isto, que o leitor recorde os precursores da social-democracia russa, como Herzen, Belínski, Tchernichévski e a brilhante plêiade de revolucionários da década de 70; que pense na importáncia universal que actualmente a literatura russa vai adquirindo; que... mas basta!
Citaremos as observaçons feitas por Engels em 1874 sobre a importáncia que a teoria tem no movimento social-democrata. Engels reconhece na grande luita da social-democracia nom duas formas (a política e a económica) –como se fai entre nós— mas três, colocando a seu lado a luita teórica. As suas recomendaçons ao movimento operário alemám, já robustecido prática e politicamente, som tam instrutivas do ponto de vista dos problemas e discussons actuais que o leitor, esperamo-lo, nom levará a mal que transcrevamos umha longa passagem do prefácio do livro Der deutsche Bauernkrieg, que de há muito se tornou umha raridade bibliográfica:
«Os operários alemáns têm duas vantagens essenciais sobre os operários do resto de Europa. A primeira é que pertencem ao povo mais teórico da Europa e conservam em si esse sentido teórico quase já completamente perdido polas chamadas classes «cultas» da Alemanha. Sem a filosofia alemá que o precedeu, sobretudo sem a filosofia de Hegel, o socialismo científico alemám, o único socialismo científico que algumha vez existiu, nunca se teria constituído. Se os operários nom tivessem tido esse sentido teórico, este socialismo científico nunca se teria tornado, tanto como se tornou hoje, carne da sua carne, sangue do seu sangue. E que esta vantagem é imensa demonstra-o, por um lado, a indiferença por toda a teoria, que é umha das principais razons de que o movimento operário inglês avance tam lentamente, apesar da excelente organizaçom dos diferentes ofícios, e, por outro lado, demonstram-no a perturbaçom e a confusom semeadas polo proudhonismo, na sua forma inicial, entre os franceses e os belgas, e, na sua forma caricatural, que lhe deu Bakúnine, entre os espanhóis e os italianos.
«A segunda vantagem consiste no facto de os alemáns terem sido quase os últimos a integrar-se no movimento operário. Do mesmo modo como o socialismo teórico alemám nunca esquecerá que assenta nos ombros de Saint-Simon, Fourier e Owen –três pensadores que, apesar de todo o carácter fantasista e de todo o utopismo das suas doutrinas, se contam entre os maiores cérebros de todos os tempos e se antecipárom genialmente a umha infinidade de verdades cuja exactidom agora estamos a demonstrar científicamente, também assim o movimento operário da Alemanha nunca deve esquecer que se desenvolveu sobre os ombros do movimento inglês e francês, que tivo a possibilidade de tirar simplesmente partido da sua experiência custosa, de evitar no presente os erros que entom, na maior parte dos casos, nom era possível evitar. Onde estaríamos agora sem o precedente das trade-unions inglesas e da luita política dos operários franceses, sem esse impulso colossal que deu especialmente a Comuna de Paris?
«Há que fazer justiça aos operários alemáns por terem aproveitado, com rara inteligência, as vantagens da sua situaçom. Pola primeira vez desde que o movimiento operário existe, a luita é canduzida metodicamente nas suas três direcçons, coordenadas e ligadas entre si: teórica, política e económico-prática (resistência aos capitalistas). É neste ataque, concêntrico por assim dizer, que reside precisamente a força e a invencibilidade do movimento alemám.
«Esta situaçom vantajosa, por um lado,e as particularidades insulares do movimento inglês e a repressom violenta do movimento francês, por outro, fam com que os operários alemáns se encontrem agora à cabeça da luita proletária. Nom é possível prever durante quanto tempo os acontecimentos lhes permitirám ocupar este posto de honra. Mas, enquanto o ocuparem, é de esperar que cumprirám devidamente as obrigaçons que lhes imponhem. Para isso, terám de redobrar os seus esforços em todos os domínios da luita e da agitaçom. Em particular, os dirigentes deverám instruir-se cada vez mais em todas as questons teóricas, libertar-se cada vez mais da influência da fraseologia tradicional, própria da antiga concepçom do mundo, e ter sempre presente que o socialismo, desde que se tornou umha ciência, exige ser tratado como umha ciência, isto é, ser estudado. A consciência assim alcançada e cada vez mais lúcida deve ser difundida entre as massas operárias com zelo cada vez maior, deve consolidar-se cada vez mais fortemente a organizaçom do partido e a dos sindicatos.
«... Se os operários alemáns continuam a avançar assim, nom digo que marcharám à cabeça do movimento –nom convém de modo nengum ao movimento que os operários de umha naçom em especial marchem à cabeça do mesmo—, mas que ocuparám um posto de honra na primeira linha de combate e se encontrarám bem apetrechados para isso se, de repente, duras provas ou grandes acontecimentos deles exigirem maior coragem, maior decisom e energia.»
Estas palavras de Engels revelárom-se proféticas. Alguns anos mais tarde, os operários alemáns fôrom inesperadamente submetidos a duras provas ao ser decretada a lei de excepçom contra os socialistas. E, com efeito, os operários alemáns enfrentárom-nas bem apetrechados, e soubérom sair vitoriosos dessas provas.
O proletariado russo terá de sofrer provas ainda infinitamente mais duras, terá de combater um monstro em comparaçom com o qual a lei de excepçom num país constitucional parece um verdadeiro pigmeu. A história coloca-nos hoje umha tarefa imediata, que é a mais revolucionária de todas as tarefas imediatas do proletariado de qualquer outro país. O cumprimento desta tarefa, a destruiçom do baluarte mais poderoso, nom só da reacçom europeia, mas também (podemos hoje dizê-lo) da reacçom asiática, tornaria o proletariado russo a vanguarda do proletariado revolucionário internacional. E temos o direito de esperar que obteremos este título de honra, merecido já polos nossos precursores, os revolucionários da década de 70, se soubermos animar o nosso movimento, mil vezes mais vasto e mais profundo, com a mesma decisom abnegada e a mesma energia.
II. A espontaneidade das massas e a consciência social da democracia
[21] Um Escritor Envaidecido é o título de um conto de Máximo Górki. (N. Ed.)
[22] Aludimos ao artigo de K. Tuline contra Struve, redigido com base na conferência intitulada O Reflexo do Marxismo na Literatura Burguesa. Ver o prólogo. (Nota de Lenine para a ediçom de 1907. Lenine refere-se ao seu artigo «O Conteúdo Económico do Populismo e a sua Crítica no Livro do Sr. Struve (Reflexo do Marxismo na Literatura Burguesa)», publicado em 1895 - N. Ed.)
[23] O livro intitula-se originariamente Premissas do Socialismo e as Tarefas da Social-Democracia, publicado na Rússia em 1901 sob diversos títulos. (N. Ed.)
[24] Trata-se do protesto dos 17 contra o Credo. O autor destas linhas participou na redacçom deste protesto (fins de 1899). O protesto e o Credo fôrom publicados juntos no estrangeiro, na Primavera de 1900. Já se sabe actualmente polo artigo da senhora Kuskova (publicado, creio, na revista Biloie [O Passado, revista histórica dedicada principalmente à história do populismo, editada com interrupçons entre 1900 e 1926, N. Ed.]), que foi ela a autora do Credo e que, entre os «economistas» de entom no estrangeiro, o Sr. Prokopóvitch desempenhava um papel proeminente. (Nota de Lenine à ediçom de 1907 – N. Ed.)
[25] Em galego, Pensamento Operário: jornal, órgao dos «economistas», publicado entre 1897 e 1902 (16 números). (N. Ed.)
[26] Refere-se ao Vademecum para a Redacçom da Rabótcheie Dielo. Compilaçom de Materiais Editada polo Grupo «Emancipaçom do Trabalho» com um prefácio de G. Plekhánov, publicado em Genebra, em 1900. (N. Ed.)
[27] Profession de foi (Profissom de fé): panfleto do Comité de Kíev do POSDR (1899), coincidente em muitos pontos com o Credo dos «economistas». (N. Ed.)
[28] Polo que sabemos, a composiçom do Comité de Kíev foi modificada posteriormente.
[29] Esta ausência de laços de partido públicos e de tradiçons de partido constitui já por si só umha diferença tam fundamental entre a Rússia e a Alemanha que deveria ter posto em guarda todo o socialismo sensato contra qualquer imitaçom cega. Mas aqui está umha amostra daquilo a que chegou a «liberdade de crítica» na Rússia. Um critico russo, o Sr. Bulgákov, fai ao crítico austriaco Hertz esta reprimenda: «Apesar de toda a independência das suas conclusons, Hertz neste ponto (acerca das cooperativas), polos vistos permanece demasiado ligado à opiniom do seu partido e, embora em desacordo em pormenores, nom se decide a abandonar o princípio geral» (O Capitalismo e a Agricultura, t. II, p. 287). Um súbdito de um Estado politicamente escravizado, no qual 999/1000 da populaçom estám corrompidos até a medula dos ossos polo servilismo político e pola absoluta incompreensom da honra de partido e dos laços de partido, repreende com sobranceria um cidadao de um Estado constitucional, por este estar demasiado «ligado à opiniom do partido»! Nada mais resta às nossas organizaçons ilegais do que pôr-se a redigir resoluçons sobre a liberdade de critica...
[30] Primeiro grupo marxista russo, fundado por G. Plekhánov na Suíça em 1883. (N. Ed.)
[31] Ver K. Marx: Crítica do Programa de Gotha. (N. Ed.)
[32] Programa de Gotha: programa do Partido Operário Socialista da Alemanha, aprovado em 1875 no Congresso de Gotha, no qual se unificárom os dous partidos socialistas alemáns, que até entom tinham estado separados: os eisenachianos (dirigidos por A. Bebel e W. Liebknecht, influenciados ideologicamente por Marx e Engels) e os lassallianos. O programa foi domolidoramente criticado por K. Marx e F. Engels, ao considerá-lo umha volta atrás em comparaçom com o Programa de Eisenach, de 1869. (N. Ed.)